Para Carlos Lopes, falar sobre a presença salesiana de Vitória, no Espírito Santo, é também contar a própria história. E ela começou ainda na infância, no bairro Forte São João, e atravessou diferentes momentos da sua vida.

Primeiro, com as brincadeiras e o acolhimento no Oratório Festivo. Depois, com a descoberta de novas possibilidades profissionais no CESAM. Anos mais tarde, com a preparação para a universidade no Dandara Pré-Vest e a realização do sonho de cursar Psicologia no Salesiano – Centro Universitário Católico.

Oratório Festivo: onde tudo começou

Na década de 1990, Carlos cresceu em uma comunidade marcada pela vulnerabilidade social e pela escassez de espaços de lazer. Para muitas crianças do bairro, os domingos eram aguardados com ansiedade, pois significavam a oportunidade de participar das atividades do Oratório Festivo.

“Eu me recordo que não tinham pracinhas, áreas de recreação, então a gente passava a semana esperando o momento para o Oratório Festivo, que acontecia aos domingos. Naquele período de muita vulnerabilidade social, nós tínhamos poucas possibilidades de recreação.”

No Oratório, Carlos encontrou um espaço para brincar, praticar esportes e construir amizades. Mas, ao revisitar suas memórias, percebe que o significado daquele ambiente ia muito além das atividades recreativas.

Ele se recorda especialmente dos educadores e voluntários que dedicavam tempo para conversar, orientar e acolher cada criança.

“Os nossos amigos reunidos, ouvindo o conselho de um adulto, num período em que crianças de periferia eram invisibilizadas, isso para a gente era muito importante. O olhar no olho, o dar atenção para alguém que é invisibilizado, isso tem uma importância muito grande. É como dizer: ‘Eu te amo, eu te quero bem e por isso nós estamos aqui para cuidar de vocês’.”

Décadas depois, Carlos ainda guarda lembranças simples daquele período, como o pão doce com mortadela e o suco de maracujá servidos durante as atividades. Sabores que, até hoje, o fazem recordar com carinho os domingos vividos no Oratório.

CESAM: quando os sonhos começaram a crescer

Na adolescência, Carlos iniciou uma nova etapa de sua história com a presença salesiana.

Ao perceber que precisava buscar oportunidades de trabalho mais estruturadas, lembrou-se do CESAM, instituição pela qual seu irmão já havia passado. Incentivado pela experiência familiar, decidiu procurar o Programa de Aprendizagem Profissional.

Aos 15 anos, ingressou na instituição e começou a descobrir um mundo que, até então, parecia distante de sua realidade.

“Antes do CESAM, eu só conhecia uma realidade. Depois do CESAM, comecei a descobrir outras realidades, possibilidades de vida que antes não eram apresentadas a mim. Eu cheguei bem curioso para entender como aquilo ia impactar a minha vida. Eu tinha um norte, um desejo, uma vontade, mas não tinha a menor ideia de quais ferramentas eram possíveis usar para chegar.”

Durante sua formação, Carlos teve contato com conhecimentos de informática, comunicação, negociação, relacionamento interpessoal e respeito às diferenças. Aprendizados que contribuíram tanto para sua preparação profissional quanto para seu desenvolvimento pessoal.

Por meio do Programa de Aprendizagem Profissional, atuou em duas empresas: a Telemar e a Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), no Porto de Vitória.

As experiências proporcionaram contato com diferentes ambientes corporativos e profissionais, ampliando sua compreensão sobre o mundo do trabalho.

Mas, para Carlos, uma das maiores transformações aconteceu na maneira como passou a enxergar suas próprias possibilidades.

“Eu queria crescer, me desenvolver, ser um ser humano que alcançasse patamares diferentes daqueles aos quais eu estava acostumado. Eu só conhecia a periferia, não conhecia outros setores sociais. A partir do CESAM, pude perceber que pessoas da minha realidade conseguem alcançar lugares para além daquela realidade.”

E foi justamente nesse processo que seus sonhos começaram a ganhar novas dimensões.

“Eu tinha sonhos, mas, quando entrei no CESAM, percebi que os meus sonhos ainda eram pequenos e que eu poderia sonhar maior, que havia possibilidade de crescimento.”

Aprendizados que permanecem até hoje

Mesmo depois de tantos anos, Carlos continua reconhecendo a influência da formação recebida no CESAM em sua atuação profissional.

Entre as lembranças mais significativas, está uma frase ouvida de um professor quando tinha aproximadamente 15 anos:

“Uma boa negociação é quando ambas as partes saem satisfeitas. Eu trago isso para os dias de hoje, porque, quando negocio algum trabalho, alguma demanda que tenho que entregar, eu lembro dessa frase toda vez que vou sentar à mesa de negociação.”

A comunicação também se tornou uma das competências que mais marcaram sua trajetória.

Hoje, atuando como psicólogo e desenvolvendo trabalhos de treinamento e desenvolvimento de pessoas, Carlos reconhece que os primeiros passos nessa área aconteceram ainda na adolescência.

“Os primeiros passos que tive de comunicação foram no CESAM. E essa comunicação abriu portas para mim até hoje. Todas as empresas pelas quais passei me elogiavam muito pela comunicação e pelo tratamento que eu dava aos outros.”

Para ele, a experiência representou muito mais do que o acesso ao primeiro emprego. Foi uma oportunidade de descobrir potencialidades, construir valores e desenvolver habilidades que continuam presentes em sua vida.

“O CESAM é um degrau importante. Sabe aquele degrau que você não consegue alcançar os patamares sem antes pisar nele? Esse é o CESAM. O CESAM é uma ponte importante para um futuro promissor.”

Dandara Pré-Vest: o reencontro de um sonho

Depois de concluir sua passagem pelo CESAM, Carlos continuou construindo sua trajetória profissional. Entretanto, havia um sonho que permanecia guardado: cursar Psicologia.

Embora tivesse o incentivo dos pais para estudar, a universidade não fazia parte da realidade de muitas pessoas de seu convívio. Sem referências próximas que tivessem seguido esse caminho, o desejo de ingressar no ensino superior acabou sendo adiado.

Anos depois, Carlos enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida. Após perder a função dos dois rins, precisou iniciar um tratamento de hemodiálise.

Foi durante uma sessão que um encontro com estudantes de Psicologia o fez refletir novamente sobre seus sonhos.

“Eu estava sentado, vendo todo o processo acontecer, e chegou um grupo de estagiários de Psicologia. Eu lembro que uma moça pediu que eu fizesse um desenho livre, o que viesse à cabeça. Eu fiz o desenho de uma montanha, com um homem em cima, de braços abertos e com asas.”

Ao conversar sobre o significado do desenho, explicou que a montanha representava os obstáculos e o homem simbolizava alguém que havia conseguido superá-los. A estudante, então, fez uma pergunta que mudou a trajetória de Carlos.

“Ela fez uma pergunta que hoje eu faço para os meus clientes: ‘O que falta para você conquistar o seu sonho?’. Foi aí que a ficha caiu. Eu pensei: falta estudar. Eu preciso estudar para conquistar uma bolsa importante e fazer a faculdade.”

Determinado a transformar esse sonho em realidade, Carlos decidiu dedicar um ano à preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Foi assim que, em 2017, chegou ao Dandara Pré-Vest, outra obra social salesiana, voltada à preparação de jovens e adultos para o ingresso no ensino superior.

O período foi especialmente significativo. Enquanto frequentava as aulas do Dandara, Carlos também passou por um transplante renal, iniciando uma nova fase de sua vida.

Além da preparação acadêmica, ele encontrou no projeto um espaço de troca de experiências, debates e construção de novas perspectivas.

“O Dandara fomentou em mim expectativas que, em outro momento, eram apenas um sonho e hoje são uma realidade.”

Salesiano – Centro Universitário Católico: quando fé e educação se encontram

Com o bom desempenho no Enem, Carlos conquistou a possibilidade de ingressar no ensino superior com uma bolsa de estudos de 100% mas ainda estava dividido entre dois cursos, Psicologia e Direito, e entre duas instituições de ensino.

Faltando apenas dois dias para tomar a decisão, recebeu uma mensagem inesperada de um amigo que não via havia algum tempo.

“Ele disse: ‘Eu tive um sonho com você. Nesse sonho, eu vi você com um jaleco branco, escrito Psicologia, na frente do Salesiano’. Ali eu tive certeza do que precisava fazer. O curso era Psicologia, e o local era o Salesiano aqui em Vitória.”

Para Carlos, que se considera um homem de fé, aquela mensagem foi a confirmação que procurava.

Ele escolheu cursar Psicologia na instituição hoje denominada Salesiano – Centro Universitário Católico e conquistou a bolsa integral que tornaria possível sua formação.

Anos depois, realizou o sonho de se tornar psicólogo.

Durante sua graduação, Carlos também teve a oportunidade de retornar ao Oratório Festivo para contribuir com a formação de outros adolescentes, revivendo, agora de uma nova perspectiva, o espaço que havia marcado sua infância.

Muito além da educação: uma presença que transforma

A história de Carlos traduz um dos princípios fundamentais da missão salesiana: estar presente na vida dos adolescentes e jovens, especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade social, oferecendo oportunidades para que possam desenvolver suas potencialidades e construir seus próprios caminhos.

E, como mostra a trajetória de Carlos, uma presença que acolhe na infância, orienta na adolescência e incentiva novos sonhos pode transformar não apenas uma etapa da vida, mas toda uma história.

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