O Papa Leão XIV afirmou que o diálogo entre representantes de diversos setores da vida social é capaz de ajudar “a enfrentar com maior realismo os desafios que têm impacto sobre o futuro comum”. No último sábado, 12 de setembro, o pontífice recebeu os participantes do “IV Encontro Sinodal Fratelli Tutti: diálogo socioambiental Norte-Sul”, representantes de organismos eclesiais, entidades sindicais, movimentos populares, representantes de empresas e universidades que se juntaram para pensar em ações e acordos relacionados à realidade do trabalho, da transição ecológica e dos novos desafios frente às novas tecnologias.
O Papa retomou reflexões apresentadas na encíclica Magnifica Humanitas e destacou o diálogo e a colaboração mútua em vista do bem comum na reponsabilidade conjunta exigida a partir das novidades do tempo atual e de seu progresso científico e tecnológico.
As novidades do nosso tempo, disse o Papa, nos colocam perante uma responsabilidade comum, apontada na Magnifica Humanitas a partir das imagens bíblicas da torre de Babel e da reconstrução das muralhas de Jerusalém: “face ao desenvolvimento tecnológico, a questão decisiva não é simplesmente se aceitamos ou rejeitamos determinados instrumentos, mas que humanidade queremos construir e que lugar cada pessoa ocupará no seu seio”.
Leão XIV disse estar feliz que a Igreja nas Américas tenha promovido o espaço de encontro e cooperação para incentivar uma agenda de responsabilidade partilhada de cooperação multissetorial.
“Quando as instituições públicas, as empresas, os trabalhadores, as universidades, as comunidades e as organizações sociais compartilham os seus conhecimentos, capacidades e recursos ao serviço do bem comum, concretiza-se uma convicção que amadureceu na Doutrina Social da Igreja e que os meus predecessores desenvolveram de várias formas: os grandes desafios sociais exigem responsabilidade partilhada, participação e colaboração entre os diferentes setores da sociedade”, comentou.
Exercício sinodal
Um exercício que vem da experiência do Sínodo pode ajudar nessa colaboração intersetorial, de acordo com o Papa: “ouvir verdadeiramente as diferenças não significa diluí-las, mas aprender a discerni-las e, a partir delas, a procurar aquilo que pode servir o bem de todos”.
“Este exercício revela-se particularmente necessário numa época em que as narrativas polarizadas encontram uma amplificação imediata e em que o conflito pode facilmente transformar-se em instrumento de poder (cf. MH, 190). Perante tal dinâmica, que pessoas e instituições tão distintas tenham decidido sentar-se à mesma mesa já implica uma responsabilidade. O verdadeiro diálogo exige algo mais do que cordialidade: obriga a perseverar no diálogo quando surgem interesses opostos e quando as decisões exigem renúncias concretas”.
Aqui, disse o Papa, “os princípios da justiça social proporcionam um critério decisivo”. Para ele, retomando a encíclica Magnifica Humanitas, uma ordem social, econômica e política só pode ser verdadeiramente considerada humana quando permite a todos, “em particular aos mais fracos, uma vida verdadeiramente humana, sem que ninguém fique para trás”.
Exemplo de Neemias
Assim como sua reflexão na encíclica, que toma a figura do profeta Neemias como o que reconstrói Jerusalém em ruínas, o Papa motivou a ouvir o sofrimento do povo, apresentá-los a Deus, discernir o que é preciso fazer, procurar os recursos necessários e organizar um projeto levado adiante com a colaboração de muitas pessoas.
“Assim como Neemias, deveis entrar ‘nos estaleiros da história – laboratórios de investigação, empresas tecnológicas, escolas, meios de comunicação, instituições, comunidades locais – para reconstruir o que ruiu e proteger o que está exposto’ (MH, 241). Além disso, convido-vos a deixar-vos desafiar pelos sinais dos tempos e a aceitar as contribuições das ciências, das culturas e das experiências humanas para discernir possíveis caminhos a percorrer”, motivou Leão.
“Que o progresso da nossa época não deixe novas ruínas no seu sulco e que tudo o que construirmos se transforme verdadeiramente em casa e refúgio para todos, a começar pelos mais necessitados”, finalizou o Papa.
Projetos concretos
De forma prática, o encontro deverá desenvolver seis projetos a partir do diálogo social e da articulação entre diversos organismos regionais e internacionais.
Para Emilce Cuda, secretária da Comissão para a América Latina, tal diálogo “é uma ferramenta que serve e serviu à humanidade para colocar em uma mesma mesa os setores organizados, como são os trabalhadores, empresários e representantes do Estado para formar acordos parciais e abertos, que são a origem de todos os direitos trabalhistas e sociais que a humanidade teve por mais de 100 anos”.
Os projetos são frutos da agenda multissetorial e atendem desafios como a transição energética, a tecnologia e o trabalho.
Um deles tratará sobre inovação tecnológica, a partir de um trabalho conjunto entre o Centro da Flórida para a Propriedade dos Empregados (FLCEO) e a Microsoft.
Outro, sobre Inteligência artificial e o desenvolvimento, financiado pela Comissão Pontifícia para a América Latina, a Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); com a execução conjunta do Celam e da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA).
Há ainda o projeto sobre a denominada Economia dos cuidados, focado em pesquisa, realização de encontros bilaterais e assistência concreta através do financiamento do BID e da OEI através da Comissão Pontifícia para a América Latina.
Por outro lado, estará o projeto para a Formação sindical em negociação coletiva, ou seja, um programa de capacitação presencial impulsionado pela Confederação Sindical dos Trabalhadores das Américas (CSA) e o Celam; que contará com o apoio do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).
Também será promovida uma mesa de trabalho integrada por empresários de mineração e energia, bancos regionais e instituições universitárias. Este projeto, focado na transição energética justa, avaliará a transição dos combustíveis fósseis para os minerais críticos, mantendo critérios de justiça social.
Por fim, há a pesquisa sobre extrativismo, uma iniciativa acadêmica na qual trabalharão a Rede de Universidades Católicas da América Latina (ODUCAL) e a Rede de Universidades para o Cuidado da Casa Comum (RUC), para gerar dados verificáveis sobre as indústrias extrativas na região.
Mineração e universidades
Este trabalho das Universidades Católicas terá como um dos objetos de pesquisa um caso concreto do Brasil.
“O método científico permitirá produzir dados técnicos rigorosos. Mas a realidade da mineração não pode ser compreendida apenas por números, indicadores econômicos ou análises geológicas. A pesquisa terá também uma dimensão sociológica e humanista. Partiremos do território. Queremos escutar as comunidades locais, compreender suas experiências e respeitar seus saberes, suas preocupações e suas aspirações”, explicou o reitor da PUC-Rio e presidente da ODUCAL, padre Anderson Pedroso.
Ele destacou a possibilidade que a iniciativa abre ao “reunir aquilo que muitas vezes aparece separado: desenvolvimento econômico e cuidado ambiental; conhecimento científico e experiência das populações; necessidades estratégicas dos países e dignidade das comunidades que vivem nos territórios onde os recursos são encontrados”.
Ao final de aproximadamente um ano o grupo deverá produzir um relatório que articule essas diferentes dimensões e ofereça elementos sólidos para o discernimento dos passos seguintes. “Os resultados serão apresentados ao Papa e aos bispos, nossos pastores, como contribuição das universidades para uma reflexão informada e responsável”, explicou.
Amizade social
Para padre Anderson, o IV Encontro Fratelli Tutti “mostra que, diante dos grandes desafios socioambientais de nosso tempo, talvez precisemos acrescentar algo ao modo habitual de procurar soluções. Além de ciência, tecnologia, legislação, investimento e políticas públicas, precisamos reconstruir a capacidade de nos encontrarmos. A amizade social, portanto, não é ingenuidade nem ausência de conflito. É a decisão de não permitir que o conflito tenha a última palavra”.
“Entre o Norte e o Sul, entre empresários e trabalhadores, entre desenvolvimento e preservação ambiental, entre interesses econômicos e comunidades locais, talvez o primeiro passo não seja descobrir imediatamente quem tem razão. Talvez seja criar as condições para que aqueles que até ontem estavam separados possam olhar juntos para a mesma realidade”, destacou.



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