Em 23 de junho de 1995, o P. Egídio Viganó, VII Sucessor de Dom Bosco, deixou esta terra e partiu para a Casa do Pai. Hoje, mais de trinta anos após sua partida, a FS o recorda com gratidão e com uma renovada consciência da atualidade perene de seus ensinamentos e testemunho. Ele concluiu sua peregrinação terrena cercado pela oração e pelo carinho de seus Coirmãos, da FS e de numerosos amigos que mele reconheceram um guia paterno, um teólogo profundamente enraizado na Igreja e um intérprete fiel e criativo do carisma de Dom Bosco para o mundo contemporâneo.
Raízes na Itália, coração na América Latina
Nascido em Sondrio, ao norte da Itália, em 1920, de uma família numerosa e profundamente cristã, Egidio conheceu Dom Bosco ainda muito jovem e abraçou a vocação salesiana com convicção e generosidade. Ainda jovem salesiano, foi enviado como missionário ao Chile, onde passaria mais de três décadas de intensa atividade apostólica e acadêmica. Sua identificação com o continente era tão profunda que chegou a considerar a América Latina como sua “segunda pátria” e era universalmente considerado um “latino-americano de adoção”.
No Chile, ele aliou o zelo pastoral a uma sólida formação teológica, obtendo o doutorado em teologia pela Universidade Católica de Santiago, onde posteriormente ocupou os cargos de professor e decano da Faculdade. Sua lucidez intelectual e sua fidelidade eclesial levaram os bispos chilenos a nomeá-lo perito teológico (peritus) durante o Concílio Vaticano II. Nessa ocasião, acompanhou de perto os desenvolvimentos doutrinários e a renovação pastoral do Concílio, uma experiência que moldaria sua visão pelo resto da vida. Posteriormente, dedicou-se a “compartilhar o pão do Concílio” com a FS por meio de suas Cartas e de sua Animação.
Reitor-Mor e líder nos anos pós-conciliares
Eleito Reitor-Mor durante o Capítulo Geral de 1977, o P. Viganó foi reconduzido por três mandatos consecutivos, liderando a Congregação por quase dezoito anos. Em período marcado pela renovação pós-conciliar e por profundas mudanças culturais, ele ajudou os salesianos a viver o carisma de Dom Bosco com profunda fidelidade à Igreja, mantendo-se, ao mesmo tempo, abertos aos desafios dos tempos modernos, especialmente nos anos que antecederam o Grande Jubileu de 2000.
Seu magistério como Reitor-Mor é lembrado, em particular, por meio de suas Mensagens Anuais e de suas ricas Cartas Circulares. Com profundidade intelectual e sensibilidade pastoral, insistiu no “sentire cum Ecclesia” - sentir e pensar com a Igreja - , em obediência e amor ao Papa. Exortou constantemente a FS a renovar-se na fidelidade, a redescobrir a riqueza espiritual e pedagógica do Sistema Preventivo e a colocar os jovens – especialmente os mais pobres – no centro de toda obra e projeto.
A serviço da Igreja universal
A estima de que gozava o P. Viganó se estendia para muito além do mundo salesiano. O Papa S. João Paulo II confiou-lhe inúmeras responsabilidades consultivas, reconhecendo nele um intérprete perspicaz da Vida Consagrada e um educador apaixonado, atento às questões urgentes do mundo contemporâneo. Ele atuou como membro ou consultor de diversos órgãos pontifícios, entre os quais o Pontifício Conselho para os Leigos, o Pontifício Conselho para a Família e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Entre 1980 e 1994, participou, por nomeação papal, de vários Sínodos dos Bispos, oferecendo valiosas contribuições sobre temas como a evangelização, a família, os leigos, a Vida Consagrada. Em 1986, foi convidado a conduzir os exercícios espirituais para o Papa e a Cúria Romana – um sinal eloquente da confiança depositada em sua profundidade espiritual e em sua solidez doutrinária. Muitos o descreviam como “um Dom Bosco latino-americano”, destacando sua capacidade de unir rigor teológico, criatividade pastoral e proximidade às pessoas, especialmente aos jovens e aos pobres.
Uma vida oferecida no sofrimento e na esperança
Os últimos anos de vida do P. Viganó foram marcados pela doença, vivida com serenidade e entrega à vontade de Deus. Embora progressivamente enfraquecido por câncer, nunca deixou - enquanto as forças lho permitiram - de acompanhar a Congregação com a oração e o conselho. Em 23 de junho de 1995, faleceu em Roma, assistido por seus Coirmãos e espiritualmente cercado por toda a FS espalhada pelo Mundo.
A notícia de seu falecimento foi recebida com profunda comoção nas presenças salesianas de todos os Continentes, entre as Filhas de Maria Auxiliadora, os Colaboradores leigos e os numerosos Jovens que o haviam conhecido por meio de suas visitas, seus escritos, sua orientação paterna. Na tradição salesiana, sua morte foi vivida, mais que como um momento de luto, como um convite a uma renovada fidelidade a Dom Bosco, na Igreja de hoje.
Um legado que ainda ressoa...
O P. Egídio Viganó deixa como herança um rico patrimônio de reflexão teológico-espiritual, especialmente por meio de suas Cartas como Reitor-Mor, que continuam a alimentar a identidade e a missão da FS. Nelas, ele propôs caminhos de renovação enraizados no Concílio Vaticano II; insistiu na centralidade de Cristo e da Eucaristia; e apontou constantemente Maria Auxiliadora como Mãe e Mestra dos discípulos de Dom Bosco. Suas reflexões - sobre o papel do Diretor salesiano, sobre a comunidade como lugar de formação e missão, e sobre a corresponsabilidade dos leigos no âmbito do carisma - permanecem de extraordinária atualidade.
Recordá-lo hoje não é apenas um ato de memória histórica. É um convite a redescobrir a síntese que ele encarnava: fidelidade a Dom Bosco, às Constituições e à Igreja; e criatividade na resposta aos novos desafios culturais e eclesiais.
Por ocasião deste aniversário, a Congregação renova seu empenho por uma fidelidade corajosa e alegre, esperando que o espírito que animava o P. Viganó continue a dar frutos na missão em favor dos Jovens - em todo o Mundo.



