Em 20 de fevereiro, o mundo é convidado a refletir sobre o Dia Mundial da Justiça Social. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), não pretende apenas marcar um conceito abstrato, mas provocar uma pergunta concreta e incômoda: em que condições reais as pessoas estão vivendo para desenvolver suas potencialidades, participar da sociedade e construir sua autonomia?
Falar de justiça social não é falar apenas de caridade, nem tampouco de assistencialismo desmedido. Trata-se, antes de tudo, de criar condições estruturais para que cada pessoa tenha oportunidades reais de crescimento humano, social e econômico. É uma discussão que atravessa ideologias, crenças e posições políticas, porque toca no núcleo do que entendemos por dignidade humana e bem comum.
Justiça social não é privilégio, é ponto de partida. Um dos equívocos mais comuns no debate público é confundir justiça social com privilégio. Justiça social não significa oferecer vantagens injustas a uns em detrimento de outros, mas reconhecer que as pessoas partem de lugares muito diferentes. Há quem nasça em contextos de segurança, acesso à educação de qualidade, saúde e redes de apoio. Outros, porém, começam a vida enfrentando escassez, violência, exclusão e falta de oportunidades básicas.
Promover justiça social é reduzir essas desigualdades de ponto de partida, garantindo que ninguém seja condenado, desde o nascimento, a uma trajetória marcada pela exclusão. É oferecer chão firme para que cada um possa caminhar com as próprias pernas.
No Brasil, o Bolsa Família é um exemplo frequentemente citado — e, muitas vezes, polarizado — quando se fala de justiça social. Para alguns, representa uma política essencial de proteção social; para outros, é visto com desconfiança, como se estimulasse dependência do Estado. No entanto, uma análise mais cuidadosa e menos ideológica permite compreender sua lógica estrutural.
O programa não se limita à transferência de renda. Ele está vinculado a condicionalidades nas áreas de educação e saúde, como a frequência escolar de crianças e adolescentes e o acompanhamento de saúde das famílias. Na prática, isso significa que o recurso financeiro atua como meio, e não como fim: garante o mínimo para a sobrevivência enquanto fortalece o acesso a direitos básicos.
Diversos estudos demonstram que programas desse tipo contribuem para:
· a redução da pobreza extrema;
· o aumento da permanência escolar;
· a diminuição do trabalho infantil;
· a melhoria de indicadores de saúde;
· a quebra de ciclos intergeracionais de pobreza.
Ou seja, trata-se de uma política que investe no desenvolvimento humano, algo que dialoga tanto com quem defende o papel do Estado na proteção dos mais vulneráveis quanto com quem acredita que a educação, o trabalho e a autonomia são os verdadeiros caminhos para a transformação social.
Uma pergunta honesta ajuda a qualificar o debate: é possível exigir autonomia de quem não tem o mínimo para sobreviver?
A justiça social parte do reconhecimento de que ninguém se desenvolve plenamente quando está lutando apenas para comer, morar ou sobreviver.
Programas de proteção social, quando bem estruturados, não substituem o esforço pessoal, nem anulam a responsabilidade individual. Pelo contrário: criam as condições para que esse esforço seja possível. São investimentos sociais que retornam à sociedade na forma de cidadãos mais preparados, saudáveis e participativos.
Essa lógica não é exclusiva de um espectro político. Países com diferentes orientações ideológicas adotam sistemas de proteção social justamente porque compreenderam que desigualdades extremas fragilizam toda a sociedade, inclusive a economia e a democracia.
No contexto das obras sociais e da missão educativa inspirada em Dom Bosco, falar de justiça social é reafirmar a centralidade da pessoa humana, especialmente das crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade. Não se trata apenas de suprir necessidades imediatas, mas de educar, acompanhar, formar e oferecer oportunidades reais de futuro.
A tradição social cristã nos lembra que a justiça social se constrói no equilíbrio entre solidariedade e responsabilidade, entre o cuidado com os mais frágeis e o incentivo à autonomia. Não é uma lógica de dependência, mas de promoção humana.
Em um cenário marcado por polarizações cada vez mais rígidas, refletir sobre justiça social exige coragem para escutar, dialogar e ir além dos rótulos. Programas sociais, políticas públicas e iniciativas comunitárias devem ser avaliados não apenas por discursos ideológicos, mas por seus impactos reais na vida das pessoas.
A pergunta central talvez não seja “de que lado isso está?”, mas sim: isso contribui para que mais pessoas vivam com dignidade, tenham acesso a direitos e possam construir sua própria história?
No Dia Mundial da Justiça Social, o convite que se faz é este: olhar para a realidade com mais profundidade, menos preconceito e mais compromisso com o bem comum. Afinal, uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela em que todos são iguais, mas aquela em que ninguém é deixado para trás.


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