A MENSAGEM DO REITOR-MOR, P. Fábio Attard
Quando Jesus dirige aos seus Discípulos o convite para “não ter medo”, é preciso estar atentos e não reduzir esse convite a um slogan superficial. É um chamado, uma palavra pronunciada por um Mestre, a aqueles que escolheram caminhar e estar com Ele. Com todas as suas faltas, os Discípulos de Jesus são aqueles que deixaram tudo para O seguir. Jesus está a falar a pessoas que gradualmente vão descobrindo o que significa a amizade com Ele, e que vale a pena tomá-LO a sério. É precisamente a partir dessa amizade que a ordem de não ter medo adquire todo o seu peso.
I. «Não tenhais medo»: não é uma escolha, mas uma descoberta
Somos tentados a ler estas palavras como um apelo à coragem que devemos evocar do fundo de nós mesmos, através da força de vontade ou do pensamento positivo. Não é assim.
O convite de Jesus não é construído sobre cálculos humanos. Não é otimismo vazio. Jesus envia os seus discípulos “como ovelhas para o meio dos lobos” (Mt 10,16), que enfrentam perigos e oposições reais. Que significa então verdadeiramente “Não tenhais medo?”. “Não ter medo” só é possível porque aconteceu “alguma coisa” àqueles que seguem Jesus. Construiu-se uma relação. Uma amizade, no sentido mais profundo da palavra, que lançou raízes no fundo do Coração do discípulo. A amizade com Jesus é diferente de qualquer outra amizade. N’Ele e com Ele descobrimos que somos conhecidos e por isso sustentados. Tal relação não é uma metáfora sentimental. É a gramática da intimidade.
Portanto, a ausência de medo é uma descoberta de que lentamente nos damos conta no tempo, através da prática de permanecer próximos a Ele: na oração, na escuta da sua Palavra, no encontro sacramental, no serviço aos pobres e aos jovens. Damo-nos conta de que, pouco a pouco, aquilo que começa como um esforço se torna confiança. Aquilo que começa como disciplina se torna amor. E nesse amor, o medo não desaparece, mas perde o seu impacto. Já não somos escravos, mas pessoas livres porque abraçados pelo amor de Jesus.
II. Seguir Jesus: um caminho que enriquece a nossa humanidade
Jesus está a enviar os seus discípulos, mas não está a abandoná-los. Todo o movimento desta passagem bíblica é o de uma missão dentro de um acompanhamento. Diz-lhes que deverão enfrentar. Diz-lhes quem é o seu Pai. Promete o seu testemunho em seu favor diante do Pai. Isto é: não se limita a dar instruções; dá-se a Si mesmo.
E isto é o coração da vida cristã: não a observância de um código, mas o caminho de se confiar a uma Pessoa. “Seguir Jesus” é uma frase tão familiar que corremos o risco de a esvaziar da sua profundidade. Porque seguir significa mover-se, deixar a segurança daquilo que era, e caminhar em direção àquilo que se vai fazendo… novo: nunca sós: mas com Ele, n’Ele, para Ele.
A beleza deste caminho é que não nos diminui, não rebaixa a Pessoa humana. Pelo contrário: é o caminho da plena humanização. Quando nos confiamos a Jesus, quando ousamos entregar-nos a Ele, somos como a criança que se abandona nos braços do Pai. Reencontramo-nos. Descobrimos uma capacidade de amor, de resistência, de alegria, de solidariedade que não sabíamos ter.
E este caminho da Fé ensina-nos, lentamente, mas com certeza: que somos sustentados. Que a nossa humanidade é preciosa aos seus olhos. Que valemos mais, infinitamente mais, do que por vezes ousamos acreditar.
É dessa segurança de ser conhecidos e amados que recebemos a força para enfrentar os desafios da missão sem… medos.
III. Declarar-se por Jesus: uma identidade pessoal madura
“A quem me reconhecer diante dos homens, também Eu o reconhecerei perante o meu Pai que está nos céus”.
Este é o movimento culminante do trecho bíblico. Escutemo-lo com atenção porque facilmente é mal-entendido. Declarar-se por Jesus não é um ato político. Não é a adoção de uma ideologia, uma bandeira que se leva, uma causa de se defender em praça pública. A linguagem do “declarar-se” poderia sugerir um momento de compromisso público”, uma espécie de posicionamento estratégico. Não é isto que Jesus nos pede.
Quando os discípulos falam de Jesus à luz do dia, quando proclamam dos telhados aquilo que ouviram nas trevas, não estão a declamar. Estão simplesmente a partilhar aquilo em que… se tornaram. Falam d’Ele porque Lhe pertencem. Dão testemunho porque a sua vida foi plasmada pela d’Ele.
Portanto, declarar-se por Jesus, significa aproximar-se da verdade mais profunda daquilo que se é. Não é um movimento de entusiasmo religioso ou de uma pertença socioemotiva. É o reconhecimento de que o mundo amadureceu através da amizade com Jesus, pela oração e pela entrega a Ele. A minha identidade está enraizada no meu “habitar” em Cristo Jesus.
Conclusão
“Não tenhais medo!”: não porque o mundo se tenha tornado seguro. Não porque a missão seja fácil. Mas porque somos conhecidos, amados e sustentados por Cristo Jesus. Somos acompanhados por Aquele que contou todos os cabelos da nossa cabeça e nos chama pelo nome diante do Pai.
Acreditamos que nunca virá a faltar-nos a graça dessa liberdade, fruto da nossa amizade com Jesus.



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