Um coração missionário para todos os jovens do mundo
A missão salesiana nasceu de um coração incapaz de permanecer indiferente diante do sofrimento dos jovens. Quando Dom Bosco iniciou sua obra em Turim, por volta de 1840, seus horizontes pareciam limitar-se às ruas da cidade, às prisões, às oficinas e aos bairros pobres onde tantos adolescentes viviam abandonados. Era preciso oferecer-lhes alimento, abrigo, estudo, formação profissional, amizade e, sobretudo, a experiência do amor de Deus.
Entretanto, aquele coração que acolhia os jovens da Casa Pinardi estava destinado a alargar-se cada vez mais, até abraçar o mundo inteiro.
Um episódio ocorrido em 1854 parece antecipar esse futuro missionário. Naquele ano, uma epidemia de cólera atingiu Turim. Dom Bosco convidou os jovens maiores do Oratório a acompanhá-lo no atendimento aos doentes. Entre os primeiros voluntários estava João Cagliero, com apenas 16 anos. Depois de servir corajosamente nos hospitais e nas casas, ele adoeceu gravemente. Consumido pela febre, recebeu dos médicos um diagnóstico que deixava poucas esperanças de recuperação.
Dom Bosco sofreu profundamente diante da possibilidade de perder aquele jovem. Porém, quando entrou no quarto trazendo o Santíssimo Sacramento, permaneceu alguns instantes imóvel, como se contemplasse algo que os demais não podiam ver. Depois, aproximou-se do enfermo e lhe disse com firmeza: “Ainda não está na hora de ir para o Céu”. Anunciou-lhe que ficaria curado, vestiria a batina, seria sacerdote, viajaria muito e iria para muito longe.
Mais tarde, Dom Bosco contou que, naquele momento, vira abrir-se diante de seus olhos um horizonte imenso. Uma pomba branca descera sobre o leito de Cagliero trazendo um ramo de oliveira. Ao redor do leito de Cagliero apareciam homens de povos distantes, que pareciam perguntar: “Se ele morrer, quem virá nos ajudar?”.
João Cagliero recuperou-se. Tornou-se sacerdote e, anos depois, integrou a primeira expedição missionária salesiana enviada à Argentina. Aquele jovem, que quase morrera depois de cuidar dos enfermos de Turim, atravessaria o oceano para levar o Evangelho a povos distantes. A missão que começara entre os jovens pobres de Valdocco alcançava novos continentes.
Esse episódio nos ajuda a compreender que a dimensão missionária não é algo secundário na vocação salesiana. Ela pertence à própria identidade da Família Salesiana. O coração de Dom Bosco não conhecia fronteiras. Seu desejo era conduzir os jovens ao encontro com Cristo, especialmente os mais pobres, abandonados e ameaçados. Por isso, onde houvesse um jovem necessitado, ali deveria chegar também a presença de seus filhos e filhas.
Como no tempo de Dom Bosco, também hoje existem vozes que perguntam: “Quem virá nos ajudar?”. São crianças, adolescentes e jovens que esperam alguém que os escute, os acolha e acredite neles. São povos que necessitam do anúncio do Evangelho, mas são também pessoas próximas de nós, muitas vezes esquecidas em nossas próprias comunidades.
A resposta deve partir de toda a Família Salesiana: Salesianos de Dom Bosco, Filhas de Maria Auxiliadora, Salesianos Cooperadores, membros da ADMA, ex-alunos, educadores, leigos, famílias e jovens. Todos somos chamados a cultivar um coração missionário, disponível para servir e corajoso para atravessar as fronteiras da indiferença.
Neste mês dedicado às missões salesianas, somos convidados a contemplar os grandes horizontes que Deus abriu diante de Dom Bosco. A mesma missão continua confiada a nós. Talvez não sejamos chamados a atravessar oceanos, mas todos podemos encurtar distâncias, construir pontes e levar a esperança de Cristo a quem está perto ou longe.
Que Maria Auxiliadora, Mãe e Mestra de Dom Bosco, nos ensine a dizer “sim” ao chamado missionário. E que, em nosso coração, como no coração de Dom Bosco, também possam caber todos os jovens do mundo.
P. Tarcizio Paulo Odelli, SDB
Diretor do Boletim Salesiano – Brasil
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