Foi publicado um manifesto dos organismos episcopais católicos da África, América Latina e Caribe, Ásia, juntamente com representantes da Igreja na Europa e na Oceânia. Um documento que visa reforçar a pressão moral e política para o abandono dos combustíveis fósseis.

Um apelo global para mudar de rumo na luta contra a crise climática e iniciar uma transição energética justa. Este é o cerne do manifesto conjunto “Towards peace with creation: an urgent call for a just transition beyond fossil fuels” (Rumo à paz com a criação: um apelo urgente a uma transição justa para além dos combustíveis fósseis), assinado pelos organismos episcopais católicos dos diferentes continentes: África, América Latina e Caribe, Ásia, juntamente com os representantes da Igreja Católica na Europa e na Oceânia. Um documento que visa reforçar a pressão moral e política para o abandono dos combustíveis fósseis.

Aquecimento global recorde nos últimos 3 anos

“A nossa posição coletiva, enraizada no nosso percurso comum na COP30 de Belém, na Amazônia, expressa no documento um apelo pela justiça climática e pela casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções”, e guiada pelos escritos proféticos do Papa Francisco, Laudato si’ e Laudate Deum, visa dar continuidade ao compromisso assumido nessa ocasião. Juntamente com o Papa Leão XIV — lê-se no documento —, afirmamos que é fundamental transformar palavras e reflexões em ações baseadas na responsabilidade, na justiça e na equidade para alcançar uma paz duradoura, cuidando da criação”. Os signatários salientam que “nos últimos três anos registou-se um aquecimento global recorde, um indicador inequívoco da intensificação do aquecimento climático de origem antropogênica”.

A vida de milhões de pessoas está em risco

O texto parte de uma constatação hoje em dia dificilmente contestável: a crise climática não é apenas uma questão ambiental, mas uma crise social, econômica e espiritual. Os bispos sublinham que as consequências do aquecimento global afetam de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. Secas, inundações, perda de biodiversidade e migrações forçadas são fenômenos que já estão transformando a vida de milhões de pessoas. Por isso, escrevem os signatários, a transição energética não pode se limitar a uma mudança tecnológica, mas deve ser “justa”, ou seja, capaz de proteger os trabalhadores, as comunidades e os territórios.

A descarbonização é um dever moral

O manifesto chama explicitamente à responsabilidade histórica dos países industrializados, que, durante mais de um século, construíram a sua prosperidade com base no uso massivo de carvão, petróleo e gás. Hoje, afirmam os bispos, essas mesmas nações têm o dever moral de liderar o processo de descarbonização, apoiando econômica e tecnologicamente os países em desenvolvimento. Sem este apoio, alertam, a transição corre o risco de se transformar numa nova forma de injustiça global. “Para garantir a responsabilidade, é necessário criar um Registo Global de Combustíveis Fósseis (Global Fossil Fuel Registry) como instrumento útil para uma transição justa e equitativa, que permita monitorizar a produção e as reservas, de modo a que todos os membros do ecossistema energético sejam responsabilizados”. “Não podemos permanecer indiferentes quando modelos econômicos e financeiros colocam em risco a vida humana”.

O empenho constante da Igreja

O documento insere-se na linha do crescente empenho da Igreja em questões ambientais, que nos últimos anos tem assumido um peso cada vez mais relevante no debate internacional. O apelo dirige-se não só aos governos, mas também às instituições financeiras, às empresas do setor energético e à sociedade civil. Todos, conclui o texto, são chamados a contribuir para a construção de um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar a justiça social e a salvaguarda do planeta. Também porque não está em jogo apenas o futuro do ambiente, mas a própria possibilidade de garantir uma vida digna às comunidades humanas que habitam a Terra.

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